2003-05-28
NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL. Porque debaixo do sol encontramos viciados em tecnologia nas ruas, ligações neurais e corpos alugados, ricos centenários e criogenização dos condenados para canibalização das partes do corpo e respectiva venda em hospitais e mercados negros, encontramos uma distopia ligeira que sucede a nossa actual, sem grandes alterações a nível político a não ser que os senadores são vagamente mais senadores e mais televisivos, o discurso é cada vez menos ideológico e mais orientado ao consumismo, encontramos o à-vontade e desprendimento de quem observa um mundo não seu, quem se apropria de uma realidade consensual (que se tornou a do pós-ciberpunk, imutável no seu modelo de imitação gibsoniano, como um Toyota descapotável é a imitação distante de um Chrysler - a revolução parou) e a descreve sem inovação. Já passeámos por esta cidade. Já vimos por estes olhos. O ciberpunk ganhou barriga, passa os domingos a ver a bola na televisão. Altered Carbons é apenas isso + enredo: um pot-pourri de Gibson, Niven, talvez Brunner, quiçá Kadrey; juntem alho. Mastigem. Não há nada de novo debaixo do sol.
2003-05-27
ENTÃO E O MATRIX? O Matrix foi, de certa forma, uma desilusão, e eu, que pensava fazer um artigo mais extenso e publicá-lo no Tecnofantasia.com, acabei por perceber que não tinha nada a acrescentar, que não valia a pena perder tempo e saliva com algo que não tinha mexido comigo.
Já o primeiro foi um copianço descarado do Neuromante, mas ao menos enquadrava-se no espírito da coisa, era ciberpunk puro e duro, completo fascíneo pelo vídeo. Aliás, revendo o primeiro, após ter visto o Reloaded, foi uma lufada de ar fresco, pois apesar dos seus defeitos, contém uma visão, um estilo e, digamos frontalmente, tem pinta. Fica favorecido perante este, embora espere que o terceiro seja o melhor dos três.
O segundo, infelizmente, é longo, aborrecido e padece do Mal de Kubrik: sequências longas sem avanço da narrativa. Algo que nunca percebi. Quando acrescenta algo à história, tudo bem; mas quando se torna repetitivo e maçudo... será possível que um realizador não se aperceba disso na montagem? Cinco a dez minutos de orgia (num filme juvenil)? Explicações demoradas da filosofia banal e do misticismo redutor (o que me aborrece no pseudo-tecno-misticismo é que é demasiado analítico, e se esquece da necessidade de poesia e encantamento da linguagem)?
Muito resumidamente: Matrix - 3 a 4 momentos de «uau!»; Matrix Reloaded - 1 (o do choque entre os camiões).
E a piorar a questão, sofre de Bladenite2: de repente, os personagens são cartoons de computador, as acrobacias impossíveis, e já não sei o que é vida real e animação... e não gosto. Sou da velha guarda!
Quanto a filmes intercalares, é melhor o Senhor dos Anéis 2, por muito aborrecido que também fosse. Mas sem dúvida nenhuma, o Império Contra-Ataca, que é capaz de ser o filme mais interessante da referida trilogia.
MAIS BOOKCROSSING EM LISBOA. Eis o comunicado:
O próximo encontro de bookcrossistas em Lisboa está agendado para
Terça-feira, dia 3 de Junho, no bar/restaurante Agito (antigo Nova) localizado
na Rua da Rosa, 261 (mais perto do Príncipe Real).
Hora e local de encontro: às 18:30 no bar/restaurante Agito. Estaremos
lá durante algumas horas, por isso mesmo que vás com atraso, aparece por lá!
Caso não saibas onde é o Agito, existem dois pontos de encontro
intermédios, aos quais deves chegar antes das 18:15: no cimo do elevador da
Glória ou na Praça Camões (ao pé da estátua).
Não te esqueças de levar livros!! Não é obrigatório, mas livros são
sempre bem-vindos nos nossos encontros e não te esqueças de os registar
previamente no site.
Se este for o primeiro encontro a que vais, leva um livro na mão e procura
pessoas também com livros nas mãos :)
Se quiseres confirmar a tua presença (e por favor indica o local onde te
encontrarás connosco), tiveres alguma dúvida ou quiseres algum esclarecimento,
podes fazê-lo enviando uma mensagem para
http://www.bookcrossing.com/sendmessage/mady ou
http://www.bookcrossing.com/sendmessage/mfa ou através do email
mady@funonline.pt
Boas leituras e até dia 3, mady (http://www.bookcrossing.com/mybookshelf/mady)
PS - Para te manteres a par das actividades do bookcrossing em Portugal,
não te esqueças de visitar o fórum português no site do bookcrosing em:
http://www.bookcrossing.com/forum/19 ou então inscreve-te no grupo do
Yahoo em
http://groups.yahoo.com/group/BCPortugal/ Esperamos ver-te por lá.
2003-05-24
EM POUCAS PALAVRAS eis o resumo do que aprendi ontem: que a ficção científica anda pelas ruas da amargura quando se difunde a possibilidade de a SARS ser uma doença vinda do espaço (interpretação idiota que em nada ajuda a especulação científica séria, uma vez que a imprensa aproveita para fazer sensionalismo); que os espiões (e não só: computadores em geral) do futuro serão tão pequenos e invisíveis que seremos capazes de estar rodeados por gigabits de capacidade de processamento sem nos apercebermos; e que o Bruce Sterling tinha, mais uma vez, razão ao prever a rejeição do tabaco pela Europa e o Mundo. Ah, e em breve, um pequeno artigo sobre a presunção cansativa do Matrix Reloaded...
2003-05-23
A CITAÇÃO DO DIA, e uma que se enquadra tão bem no espírito híbrido da Tecnofantasia (discurso de William Gibson numa apresentação recente):
I imagine that one of the things our great-grandchildren will find quaintest about us is how we had all these different, function-specific devices. Their fridges will remind them of appointments and the trunks of their cars will, if need be, keep the groceries from thawing. The environment itself will be smart, rather than various function-specific nodes scattered through it. Genuinely ubiquitous computing spreads like warm Vaseline. Genuinely evolved interfaces are transparent, so transparent as to be invisible.
2003-05-22
QUE MAIS POSSO FAZER perante a obra-prima de Spike Lee, que ontem presenciei, senão ficar pasmado com a complexidade, a importância, a angústia sentida, a mestria do texto, Nova Iorque after 9/11 (que coincidência a data com o do número nacional de socorro...), e Eduard Norton no seu melhor?
A PROPÓSITO DO COMENTÁRIO de hoje no blog do William Gibson ("Quinta do Bill" aqui ao lado na página), sobre a necessidade de encarar a leitura de livros como um possível acrescento a uma educação cultural assente sobre a não-escrita (o exemplo dado é o das telenovelas no Brasil) - o que não é necessariamente mau, apenas diferente -, e relacionando-o com uma crítica ao novo livro da Atwood, que se pressupõe ficção científica, feita pelo Sven Birkets no New York Times, em que defende que «science fiction will never be Literature with a capital ''L,'' and this is because it inevitably proceeds from premise rather than character. It sacrifices moral and psychological nuance in favor of more conceptual matters, and elevates scenario over sensibility», (esta frase já vai longa, vamos ver como acaba) fico espantado como poucos ou ninguém, além do Charles Sheffield, entendeu que o livro, ou seja o texto, com a sua pobreza extremamente maleável de configurar um mundo de forma barata - usando palavras -, não se sustém mais sozinho, que não basta aquela história, aquela perspectiva do mundo, senão atacar em várias frentes, produzir o multi-livro, em CDROM, filme e a cores, que o texto não é o canal, mas um dos canais, que o que interessa é a mensagem, e esta cada vez tem mais dificuldade em ser ouvida no meio das outras. (Vá lá, a frase acabou bem) (e esta entrada no blog também)
2003-05-20
A CITAÇÃO ETERNA ou o que chamo FRAGMENTOS DE IMORTALIDADE. Sem palavras:
There is in certain living souls
A quality of loneliness unspeakable,
So great it must be shared
As company is shared by lesser beings.
Such a loneliness is mine; so know by this
That in immensity
There is one lonelier than you.
("A Saucer of Loneliness", Theodore Sturgeon)
PROCURA-SE BLOG para co-habitar com outro blog. Simpático, moreno, doido por ficção científica e literatura esquisita em geral. Procura em outros países, pois no deles não encontra blogs semelhantes. A praia está deserta. E um pobre blog precisa de companhia. Nem tudo são mensagens em garrafas - e até a protagonista desse conto tinha como intenção o suicídio.
PUZZLES DE CARBONO E eis que o primeiro romance de Richard Morgan se desvenda ante mim, se desnuda, numa orgia de violência desmesurada. Imagino o filme nas mãos de John Woo, num Peckinpah renascido... e a história não é original, começa por ser a de um mercenário renegado que, tendo sido preso pelas forças da lei e colocado em suspensão criogénica, acaba por ser solto por um magnata que crê ser esse mercenário o único capaz de desvendar o mistério relacionado com o seu próprio misterioso suicídio... é impressão minha ou o nome Stallone começa a boiar nestas águas turvas? E agora digam-me lá se a falta de originalidade (ou a vontade do autor em chamar a atenção dos produtores de cinema?) não constitui aquilo que em gestão se designa por «barreiras à entrada»?
EM DESENVOLVIMENTO o meu conto originalmente destinado para a antologia do Jorge sobre realidades e irrealidades virtuais. Obviamente que desvirtuo a coisa. Demorou mas encontrei o que quero dizer. Já não tenho paciência para publicar qualquer estória, qualquer cópia de outros milhares já mastigados. Este o problema da FC ser tão popular, e feita por tantos que sabem tão pouco. Tive esse problema com o início (perfeitamente idiota) do The Quiet Invasion, da Sarah Zettel, tive-o com o do Altered Carbon do Richard Morgan (mas este está a passar...) E de certa forma, o Jorge tem razão sobre a minha irregularidade, embora esta se deva a deixar que se publique rascunhos e não peças terminadas. O mais difícil é dominar a ansiedade. Está feito, está feito - pois nem sempre deve ser assim.
2003-05-19
COMPUTER DEAD E agora, como respirar?...Será dos drivers? Conflito de ports? Problema de hardware? O intrépido aventureiro arma-se com ferramentas de debug e outras que tais, antes de penetrar em território desconhecido... e hostil (ou não fosse Windows).
2003-05-16
PARECE IMPOSSÍVEL Chegar a este site é como fazer a viagem até ao Porto de navio: de facto, é possível, mas não era uma opção que nos ocorresse à primeira, ou mesmo à décima-quinta... Mas porque não? Esta senhora merece o seu site. E sem desprimor, que me lembro de a ver cantar pela primeira vez no teatro D. João V, na Damaia, no ano distante de 1989, e pela segunda vez há umas semanas na Fnac. Aliás, segundo a biografia, não tem estado parada. E os pássaros que vinham do Sul marcaram (ao de leve) um momento da nossa geração. Clube de fãs? Não se encontra lá quem eu conheça; atributo de como é discreta a sua música. Bem haja, e que tenha sorte. Ao menos (e se calhar isto explica tudo), tem como agência algo chamado Oficina da Ilusão...
DESCOBRIR UM NOVO AUTOR, mesmo que publicado em outro lugar, é sempre um prazer, especialmente se é inesperado, se não se procura. Aconteceu assim com o Luís. Este conto é inédito em termos da Tecnofantasia. Aconselho-vos a ir ler.
2003-05-14
COMENTÁRIO DO DIA e não necessariamente citação, embora provenha do weblog do Charles Stross, cujo link se encontra indicado algures à esquerda nesta página. Algo que me é muito próximo.
Não é necessariamente verdade, mas também não é necessariamente mentira...«My experience of large consulting companies is that their analysts are more focussed on the appearance of professionalism than on the substance, more interested in looking trustworthy to the occupants of the boardroom -- walking the management walk, talking the management talk -- than in actually doing the job. And, just as bad money drives out good, the focus on client relationships drives out competence because clients like predictability, and good security cannot, by its very nature, be allowed to become predictable.»
A CITAÇÃO DO DIA vem da pena do João Barreiros, retirada de um comentário feito no Fórum da Intempol:
E agora pensem no seguinte: Que o fim dos tempos já chegou. Que o universo colapsou no tal buraco negro final. Que a nossa vida é uma ilusão. Que fazemos parte de um parágrafo na enciclopédia gnóstica do pseudo-universo. Isso não vos assusta? Não vos maravilha? Não vos dá a sensação que somos imortais? Actores num filme que se repete sem fim?
Digam de vossa justiça. Eu reservo a minha opinião (e que é muito parecida com a do João).
PROPAGANDA À FLOR DA PELE É espantoso (e perigoso) como estas seitas têm a mania de governar todas as facetas da vida de uma pessoa. Isto, assim, tira a graça toda aos one-night-stands, para não dizer que tira outra coisa...
ENTENDER BANDA DESENHADA Por qualquer razão, ainda se debate sobre a pertinência do ensino da Banda Desenhada na faculdade. Considerando que se trata de uma indústria que movimenta milhões de dólares anualmente, e considerando a quantidade de ícones, revistas e atitudes que derivam da forma mais popular, os super-heróis americanos, o debate mostra apenas o quão longe da realidade se encontra a Academia. Talvez um dia consigamos afastar-nos do modelo de Platão...
2003-05-13
O NOVO VELHO REBENTO Inaugurado em 1998 enquanto newsletter da associação portuguesa de ficção científica, então em plena actividade (mas que já tinha visto melhores dias), aquela que se viria a tornar em 2000 a EVENTOS - Revista de Tecnofantasia, em nova inauguração e com honras de jornal (Público e Sapo.pt), passou por uma terceira encarnação em Janeiro de 2002, desta feita com formato web. Se a primeira se limitava às actividades da associação e a segunda tinha já artigos, contos e manifestos de opinião, a última dava um passo atrás e limitava-se às notícias fresquinhas, saidas do forno, sobre a ficção científica - mas deixava cair o espaço conto e artigo. E tendo sido sempre intenção restituí-lo, durante bastantes horas desenvolvi o mecanismo de publicação e edição do site, até perceber que o formato não era o apropriado. Agora, creio que acertei. Eis o novo formato, a nova encarnação da coisa, que convido todos a visitar - mesmo endereço: www.TecnoFantasia.com
E eis-nos a caminho da quinta inauguração...
A BIBLIOTECA GLOBAL O movimento Bookcrossing começou há poucos meses em Portugal, importado de outros países, e ganhou um momento impressionante. O conceito é simples: trata-se de expandir a biblioteca pessoal numa biblioteca global à escala terrestre, literalmente, pelo simples processo de registar e trocar livros - adicionado por um conceito inovador que é o de «libertar» os livros, deixá-los em locais públicos para a descoberta de qualquer um. O conceito é muito giro, e sobre ele falarei futuramente de forma mais extensa (até porque, por força do destino, fui o primeiro a registar-me no site, e agora sou considerado o primeiro bookcrossista português, se bem que não o mais activo...), mas essencialmente permite o alcance aos membros de livros distantes e que dificilmente se encontrariam ou seriam adquiridos. Vale a pena tentar.
Mensalmente, alguns membros reúnem-se em locais combinados - Lisboa, Braga, Porto, entre outros. O de Lisboa é dia 17, e faço-vos chegar a missiva. Novos membros são muito bem-vindos.
O próximo encontro de bookcrossistas em Lisboa está agendado para Sábado, dia 17 de Maio, na Escola Superior de Educação (ESE) de Lisboa localizada na Av. Carolina Michaelis em Benfica. (antigo magistério primário)
Hora e local de encontro: às 15:00 na entrada da ESE. Para ficares a conhecer um pouco melhor a ESE, vai até ao site http://www.eselx.ipl.pt/visita.htm clica em A-entrada e depois podes visualizar um pequeno filme da fachada da ESE, mais o relvado em frente.
Tendo em conta que muitas pessoas poderão não conhecer o melhor caminho até à ESE, existem mais 2 pontos de encontro. Por favor não chegues depois das 14:45 a nenhum destes locais para não chegarmos atrasados ao encontro. Pontos de encontro:
- Paragem de autocarros do 16, 46, 58, 63 ao lado do Centro Comercial Fonte Nova (sentido Praça de Espanha - Sete Rios – Benfica). No entanto, para além destes autocarros existem também: 33, 50 (sentido Campo Grande – Benfica); e 3, 67 (sentido Campo Grande – Colombo, paragem a seguir ao metro do Colégio Militar). A quem vier num destes últimos pede-se que, ao pé do Fonte Nova procure a paragem do 16, 46, 58, 63.
- Estação de comboios de Benfica. Quem vier de autocarro no sentido Algés – Benfica, deve descer na paragem da estação de comboios. Quem vier no autocarro 29, 54 ou 68 deve descer na paragem da estação de comboios (esperar junto do quisque de jornais)
Para quem for de carro, no sentido Campo Grande - Benfica (na 2ª circular) há umas bombas da Shell a seguir ao Colombo, (não sair nessa saída) sair na saída que diz Benfica (que é logo a seguir), há uns semáforos, virar logo à direita (placa que diz escolas) continuar e estacionar no parque da ESE (há muitos lugares para estacionar).
Não te esqueças de levar livros!! Não é obrigatório, mas livros são sempre bem-vindos nos nossos encontros e não te esqueças de os registar previamente no site. Se este for o primeiro encontro a que vais, leva um livro na mão e procura pessoas também com livros nas mãos :) Se o tempo nos permitir vamos-nos reunir no relvado em frente à ESE, por isso se quiseres, leva uma manta também.
Se quiseres confirmar a tua presença (e por favor indica o local onde te encontrarás connosco), tiveres alguma dúvida ou quiseres algum esclarecimento, podes fazê-lo enviando uma mensagem para http://www.bookcrossing.com/sendmessage/mady ou http://www.bookcrossing.com/sendmessage/mfa ou http://www.bookcrossing.com/sendmessage/agaio No caso de teres dúvidas acerca de como chegar à ESE, por favor contacta a Anabela Gaio (anagaio@eselx.ipl.pt)
Boas leituras e até dia 17
PS – E não te esqueças de visitar o fórum português no site do bookcrosing em: http://www.bookcrossing.com/forum/19 Esperamos ver-te por lá.
Sincerely, mfa (http://www.bookcrossing.com/mybookshelf/mfa)
2003-05-12
O JOGO DO GATO E DO RATO Segunda-feira, manhã de Maio, polícias nas ruas. Em carros, vigilantes à menor infracção automobilística. Muitos, cerca de 3 ou 4 carros entre Santos e as Amoreiras. A cumprir o seu dever. Ou o dever que hoje lhes mandaram cumprir. Uma mensagem está a ser passada. Não prevaricarás. E para isso ouvi dizer que até vão conduzir à paisana, talvez até fantasiados de (medo!) taxistas! Isto preocupa-nos. Porque agora temos de ter atenção, lembrar-nos de um código antigo, esquecer que conduzir bem é mais do que cumprir regras. Temos de andar preocupados constantemente. E isto numa sociedade que não limita a aquisição de carro mas o seu uso (porque um é taxado e outro só de vez em quando?) - o que faz tanto sentido como deixar construir mais tectos que paredes...
A pergunta que urge fazer é: que assunto mais grave querem «eles» que passe despercebido da nossa atenção, desta vez?
2003-05-11
ESTA ENTRADA É SOBRE PARAGENS DE AUTOCARRO em caminhos perdidos no interior de Portugal. Naquelas estradas vazias do Alentejo, no meio do mato, sem casa à vista, nem casebre, nem mula, nem carro, nem vento, nem tempo. Não há ninguém nas paragens, nunca, e estão limpas e aparentemente em uso, e não há autocarros na estrada, nunca, não a ir, não a vir, não há tempo, horários. Que destino há naquela paragem? Quem entra, de onde vem? Quem sai, para onde vai? Que carreiras, vaivéns, que sonho de ver chegar e partir alimentam aquelas paragens de autocarro no meio da palavra solitária que é o Alentejo profundo? Imaginem quem as constrói - um dia passará o autocarro. If I built it they will come. Espera? Continua?
Paragens de autocarro de meia-noite. A carreira é uma só - e não volta.
Temos o nosso fantástico no meio do Alentejo. Temo-lo e não o honramos.
Esta é para A.G.
2003-05-10
OS OLHOS DESESPERADAMENTE À BUSCA de novidades nas livrarias, novidades em português, e a notar que o recente fôlego que pareceu inspirar a Argonauta gigante (onde estão os próximos volumes do Peter Hamilton? E a conclusão da Fundação?), a reviravolta da Nébula (Walter Miller, Connie Willis), e mesmo o surgimento da Presença (Neal Stephenson, Orson Scott Card) estão a esmorecer - os próximos livros demoram a sair, os que saem são reedições. Fiel como um cão, continua a Argonauta pequenina, e continuará até a Livros do Brasil se cansar um dia, ou expirar o último dos coleccionadores de longa data. Onde estão as novidades? O mecanismo de relógio que todos os finais de meses nos trazia mais um número da livros de bolso? Todas as últimas quartas-feiras do mês a Argonauta? Todos os três meses uma Nébula?
2003-05-09
DA GAVETA E já agora, e porque me sinto generoso, eis a epígrafe (inédita!!!) de um romance que teima em nascer morto (um dia conto-vos a história), e que o sintetiza, retrata, personifica, magistralmente (não costumo falar assim do meu trabalho...). Chama-se A Abordagem Culturalista:
(...) Vivemos no segundo milénio da era do homem livre, o homo universalis que se multiplicou e espalhou pela orla da galáxia onde habitava, que venceu a impossibilidade das leis físicas e reduziu as distâncias num estalar mágico de dedos, que, transformando energia em conhecimento, construiu centros de armazenamento de dados para unir num só lugar a memória e esperiência de todos os tempos, qual gigantesca superfície de Mobius, um Aleph da lógica; o homem que, não satisfeito com a capacidade limitada da sua inteligência, incapaz da rapidez e da capacidade para abarcar distâncias de anos-luz e equações de complexidade ainda mais imensurável, a aplicou na concepção de outras inteligências, soberanas, livres da problemática dos corpos biológicos e da imponderabilidade da morte; o homem que não se deteve perante ambientes não adequados à sua sobrevivência, primeiramente sendo forçado a adaptar-se - não sem sacrifícios -, até ao momento em que a sua sabedoria e poder tecnológico se tornaram capazes de adaptar os ambientes a ele; o homem que encontrou e estudou outros seres, muito diferentes dele, alguns também possuidores de inteligência, e que conseguiu oferecer-lhes um nicho na sociedade em criação. Eis a era das maravilhas, a era do reinado do homem supremo! Não há nada que o ser humano não possa fazer, desde que o queira.
Este conforto, sentido a nível quase universal dentro do Espaço Habitado, manifestou-se de forma máxima na diversidade de culturas que se podem encontrar, não só de habitáculo para habitáculo (seja este um planeta, uma plataforma de teleporte, uma disona, uma cidadela), como dentro de cada um, entre povos de diferentes regiões. Costumes antigos, existentes apenas na sabedoria das nossas Memórias, pertencentes a civilizações que se perderam no tempo (mesmo se considerarmos um ponto de vista genético), foram ressuscitados; linguagens de que ninguém mais se lembrava foram recuperadas, servindo de factor de exclusão perante elementos estranhos à comunidade; monumentos e estéticas e estilos acarinhados pelos artistas dos séculos pré-Expansão foram recuperados por um novo tipo de mecenas. Em suma, tudo o que é ou foi do homem, por ele construído ou respeitado, serve agora de elemento de adoração.
Afinal, quem precisa de deuses?
In Afinal, Quem Precisa de Deuses?: A Adoração Encarada Como uma Estratégia de Sobrevivência, D. Moldon, Pascal Repousa
Quem precisa de deuses? Todos nós, talvez? De muitas e variadas formas?
2003-05-08
O BOM GOSTO DEVE SER PRESERVADO (3) O Carlos de Portugal diz o seguinte da GalxMente: «Há muito que as únicas consciências são digitais, vivendo numa matriz há milénios. Mas para sentirem prazer que lhes é negado nessa forma, recriam corpos humanos para gozarem os prazeres dos sentidos. Um desses prazeres é a apreciação de obras de Arte, faltando-lhes no entanto a criatividade, criando para isso seres humanos para as produzirem, que desconhecem a verdadeira natureza do mundo. Mas segundo a sua lógica a verdadeira arte só vem do sofrimento e esses verdadeiros humanos, são lhes dados terríveis doenças e deformidades para produzirem obras de melhor qualidade. Uma boa história envolvente, mas que ao longo da escrita mostra alguma assimetria no desenvolvimento dos personagens, com alguns saltos um pouco abruptos entre pontos de vista.»
TOO MUCH WORK MAKES JOHNNY E enquanto as garras do dever me fixam na cadeira do escritório, enquanto a definição idiota do Blogger não me deixa colocar caracteres portugueses nos títulos dos meus livros («Vingancas»? Céus!), enquanto em casa me aguarda um projecto muito pessoal (não é o que estão a pensar!) que em breve irão conhecer, deixo-vos com isto, com uma pequena frase que encontrei no site da K. J. Bishop, e que merece, ó se merece, ser reproduzido:
Look for your own. Do not do what someone else could do as well as you. Do not say, do not write what someone else could say, could write as well as you. Care for nothing in yourself but what you feel exists nowhere else. And, out of yourself create, impatiently or patiently, the most irreplaceable of beings.
André Gide
Take care. Fall in love.
2003-05-07
FC POR SMS (4) Esta surge com o contributo do Luís Raínha (obrigado!). É do Brian Aldiss:
Toy fish swim in clockwork fountains. They are learning to devour each other.
2003-05-06
A FRASE DO DIA Esta vem directamente do Luís Rodrigues (embora escreva em inglês, o rapaz é cá dos nossos):
I have this theory that because the world didn't end at the appointed time, it exhausted whatever it is Destiny allocated and now consumes fiction in order to go on.
Bem, isto explica muita coisa!
NÃO ME APETECE Apenas uma curta nota para explicar que podia ter dito que este foi um fim de semana de filmes interessantes, como o X-Men 2, que continha uma abordagem inteligente e humana dos mutantes (sempre embirrei com este conceito e este grupo de super-herói, especialmente quando escritos pela mão de hipopótamo do Chris Claremont) (numa lista de discussão, debatia-se sobre a infantilidade do conceito e de como a FC filmada não conseguir evoluir para histórias mais plausíveis, argumento que suporto, embora neste caso, dada a qualidade dos actores e do argumento, possa contrapor que na verdade é uma estória bem contada de encontrar o nosso lugar no grupo, adaptarmo-nos à sociedade, tema muito querido a qualquer adolescente e - sejamos sinceros - a qualquer adulto), e a Short Film About John Bolton, que devia chamar-se "The Truth About John Bolton", feita pelo Neil Gaiman, autor que esteve presente no festival de BD no Fórum Picoas e que, por motivos pessoais, não tive oportunidade de conhecer - fica para a próxima (um filmezinho tipo documentário muito, muito bem feito, que até mete vampiras boazonhas semi-nuas... e mais não digo!). Fica esta breve nota a dizer que podia ter debatido todos estes assuntos, e os autores que conheci, mas sinceramente não me apetece.
2003-05-03
EXERCITAR OS DEDOS como fazem os pianistas é uma boa forma de fazer fluir os sucos criativos. Começar numa palavra e ir em frente - já produziu bons resultados, como a Recordação Imóvel. Mas... e porque ficar por aí? Que tal um exercício diferente? Começar um mini-conto e não o acabar. Na verdade, parar a meio. Parar antes de qualquer forma de resolução. Desaparecer como um avião do radar, ficar num estado de latência até se descobrir a conclusão mais tarde (nota: não tem de ser sempre trágica) (nota 2: não precisa de haver continuação). Os Monty Python fugiam a sete pés das punch lines - sendo assim, porque ficar constrangido ao encerramento clássico? Hmmmm.....
2003-05-02
ONTEM VI PICASSO Estava escondido numa igreja paroquial de Fátima. Uma igreja despida de todos os ornamentos, feia, de tecto de madeira, sem ícones, sem luz ambiente, branca, prática, espartana, directa. A estética não tinha chegado ali. E contudo tinha nave, tinha púlpito, tinha devotas a rezar. O que me espantou, porque não me senti num espaço religioso. Seria desespero, ou um católico sentir-se-ia, mesmo assim, mais perto da presença do Senhor naquele espaço? (Embora a presença faça mais sentido manifestar-se no mundo e muito em particular em locais como este, mas enfim...) Os traços seriam suficientes para despertar o fervor religioso? Traços que estão escondidos na beleza redundante dos outros locais? Se sim, então aquela igreja seria a mais verdadeira de todas, por ser a menos ornamentada. O que numa terra de ostentação como aquela é de facto um verdadeiro acontecimento... E assim percebi que Picasso estava ali, ou pelo menos o fantasma dele. Porque aquilo era o touro.
Onde está o touro na ficção científica? Na (quiçá aparente) banalidade do Star Trek ou do Star Wars?
Disclaimer: viagem a Fátima somente circunstancial. Ou talvez não, quem sabe?
2003-05-01
ELES DIZEM: os blogs são para comentários breves, não para contos, a estrutura não se adequa. E eu digo: ó pra mim ralado... Fica como prenda do 1º de Maio, este grande Dia do Trabalhador que se honra ao estilo sabbath.
A Criança da Memória: Prelúdios
Se um bebé sente o tempo como um conjunto de instâncias sem ordem, e logo o tempo não tem sentido, não existe, para uma criança de memória o tempo acaba por ser, paradoxalmente, a única constante que lhe define a vida. O tempo, as ilhas isoladas do existir entre despertar e voltar a dormir, entre um pestanejar e outro. A sucessão de segundos, cuja mera existência esconde um atributo de milagre. O que significa a hora? O que significa este envelhecer de movimentos e sensações, este encadeamento de imagens a que chamamos estar vivo, como se liga um instante a outro? São estas as dúvidas que assaltam as crianças de memória. É o mesmo mundo que nos acompanha nesta viagem, ou somos nós que imaginamos o tempo, que trespassamos infinidades de mundos, quase semelhantes entre si, todos eles parados, todos eles fotogramas e nós a mera mancha na paisagem? O que é seres tu?
Ninguém nasce criança de memória. Simplesmente acorda-se um dia. Eu acordei de um longo sono e não era mais eu. Não era mais o rapaz magro e moreno com sardas e mãos delgadas que me saudava do outro lado do espelho. Quem o substituia, desta vez, era uma figura forte, cinco ou dez anos mais velho, ruivo, gordo, pesado, estranho. Como gritei! Como gritei naquela manhã, assustando médicos, pais, terapeutas, todo o hospital. Tinham-me deixado descobrir por mim próprio. Só depois me contariam, com algum pormenor, o resultado da viagem transafricana – viagem de que não recordaria nem vontade nem benefício, tendo sido tomada muito depois da última gravação com a qual me tinham despertado. A viagem que se tornaria acidente, ceifando as vidas de milhares e milhares e lançando igual número de lares num futuro feito de ausências. Seria esse o futuro dos meus pais, mas eles disseram Não. Para alguma coisa prestavam vassalagem à tecnologia. Para alguma coisa tinham feito cópias de segurança de mim próprio, daquilo que me define, daquilo que eu sou. Não me perguntem o que é: não sei dizer. Apenas desconfio que está algures entre as memórias, as reacções, os dons, que algo a que se pode chamar alma – ou talvez apenas uma ilusão de si mesma – se esconde aí, e apenas surge quando posta em movimento, mas decide não ser vista.
E depois era só encontrar um hospedeiro. O que é difícil, quase proibido, quando se tinha tão tenra idade quanto eu. Pois o hospedeiro, enquanto alberga a personalidade alheia, não vive a sua. Pára no tempo, cede espaço e uso do seu corpo, e recolhe-se algures num recanto da mente, como se dormisse. A lei não permite que menores cedam este espaço, e o que era eu senão menor, com a minha idade de onze anos? O que acabaria por continuar a ser, senão o paradoxo aberrante de um puto imberbe num corpo de adolescente?
Imaginam como me senti? Não conseguem.
Foi aprender a viver, dali para a frente. Hospedar tinha um limite, pelo esgotamento da mente de quem transportava. Era preciso descansar o espírito durante meses por umas semanas de ocupação. A criança de memória vive assim, no intervalo dos anos, o tempo torna-se visível, água, chuva, invernos e verões sem nexo, as cenas não ligam, a história não tem sentido. Não querendo perder-me nos intervalos, os meus pais optaram pela hospedagem múltipla. Daí que todos os meses me habituava a alguém novo, a uma nova cara, uma nova idade, uma nova forma de estar. Por vezes era bonito e atraía as atenções. Por vezes, tinha aspecto de criança ainda, e podia reverter àquilo que sabia ser, aos brinquedos, às corridas, à imaginação. Por vezes, tinha de ser já adulto. A reacção dos outros é somente condicionada pelo aspecto, e quebrada pelo comportamento. À maravilha da descoberta de um estranho, segue-se o desencantamento de conhecer-lhe a personalidade. Para evitar confusões, usava constantemente um sinal que me marcava como criança de memória. Mais tarde deixar-me-ia disso: era demasiado penoso encontrar constantemente aquele olhar de pena e perdão no rosto dos outros. No inferno do rosto dos outros.
Mas quem era eu agora? Seria aqueles que me hospedavam? Fascinado, hipnotizado pela prática, segui-lhes inicialmente as histórias, quis saber quem eram. Cometi a loucura de procurar conhecidos deles, tentar perceber como e porquê alguém se decidia pela hospedagem. Foi um desastre, que quase culminou em violência. Também segui de longe antigos hospedeiros meus. Era tão estranho! Como se encontrasse partes separadas de mim a ter vida própria, pensamentos distintos, um braço, uma perna, olá estão bons como têm andado? Mas o que deveria fazer? De que outra forma compreender este grande fenómeno, este milagre de estar vivo aos poucos, que tanto custava financeiramente aos meus pais? Hospedar traduzia-se em contratos muito bem remunerados; o risco da perda de sanidade era pago em ouro, e como a duração era reduzida, os proponentes iam surgindo, a vários preços.
Longe vai essa época. Tudo o que é escasso tem um fim, e o dinheiro acima de tudo. Com o desaparecimento do meu pai, descobri que tinham retirado das reservas que fizeram para si mesmos para me manter desperto. O meu pai jamais se tornaria numa criança de memória, a não ser que eu conseguisse sustentar-me. Ficaria guardado numa prateleira, a perder validade, a envelhecer sem estar vivo, a desactualizar-se de um mundo que não se lembrava dele. A não ser eu. Pois apenas eles se mantinham constantes numa vida que já não tinha nada de permanente. Acordava de manhã e era outro, podia ser qualquer pessoa. Nessas condições, adormecer é um terror, ao início, e depois, como todos os terrores que teimam em ficar, uma monotonia atroz.
E assim se acabou a minha estada nos melhores e mais caros. Comecei a procurar nos hospedeiros seguintes pessoas com menos estabilidade, menos adequadas ao meu semblante inicial, mas mais próximas do meu orçamento. Tive de esquecer a idade, e aceitar novos e idosos em igual medida. Esqueci-me dos preconceitos de beleza e saúde, e abracei obesos em excesso, alcoólicos, viciados, suicidas – não foi fácil, não continua a ser nada fácil. Finalmente, abdiquei da preferência sexual, e troquei de sexo como quem troca de roupa, o que apenas me fez ficar mais afastado de todos, virgem no meu medo de partilha e de dor. Pois como poderia amar alguém que perderia em pouco tempo? Como poderia esse outro adaptar-se a uma pessoa nova dez vezes num ano, tentando convencer-se de que era a mesma? A mente pode forçar o entendimento, mas o coração não.
E o sacrifício maior foi abandonar o rio do tempo.
Viver apenas umas quantas vezes por ano. Em alguns hospedeiros.
Não sentir continuidade mas episódios interrompidos de um filme com demasiados protagonistas.
Onde estou eu?
Quem sou eu?
Procurei aqueles iguais a mim, mas a verdade é que eram demasiado iguais a mim, iguais a todos, a comunidade das crianças de memória que em todos os encontros mudavam de figuras. Que nem sempre voltavam.
Que estranhos, estes viajantes do tempo. Que estranhas embarcações habitavam.
Presenciei uma vez a implantação do cartucho de identidade. Um processador do formato de um cabelo, inserido directamente no hipotálamo. Aquilo era eu, concentrado, um traço no universo. Memórias? Tinha-as em demasia. Diziam que nelas estava a nossa definição. Talvez. Continuo a crer que está, isso sim, no que falta fazer, no que falta ser. Aquele cabelo não representava o que eu era, mas o que tinha sido. Apenas uma gravação de coisas feitas, mortas. Estar vivo é ser uma possibilidade.
Quem sou eu? Porque não deixo de sê-lo?
Porque os meus pais se sacrificaram. Pelo peso da herança desse amor doentio, por tudo isso que restou. Quem sou eu hoje, senão o fruto dessas escolhas, das minhas escolhas?
Posso apenas escolher quem vou ser amanhã.
A selecção foi pedida. Os critérios aplicados. Da próxima vez, quero acordar num corpo com esta e aquela qualidade. Escolhi-as bem, a sua mistura é quase impossível. Não há ninguém actualmente, vou ter de ficar à espera. Esquecido como o meu pai. Viajante no tempo, interminável, um torpor criogénico que não conhece a próxima paragem. Vai demorar anos, diz o simulador. Pelo historial de hospedeiros, só houve alguém com essas características uma vez, há muito tempo. Não faz mal, vou aguardar, e confirmo a escolha ao simulador. Quando despertar, amanhã, estarei longe de vocês, mais longe do que qualquer outro peregrino, e sem possibilidade de voltar.
Apenas peço que me guardem nas vossas memórias.
(C) 2002 Luís Filipe Silva. Publicado pela primeira vez na revista Quo, Outubro 2002
ROMÂNTICO INCURÁVEL (ou A CITAÇÃO DO DIA) E é assim que vou acabar sendo conhecido. Mas como é possível resistir a uma mulher como esta?
When I am tired and have thought too much about it all, Beverly's last words come back to me. Mostly I put them straight out of my head, think about anything else. Who remembers what she said? Who knows what she meant?
But there are other times when I let them in. Turn them over. Then they become, not a threat as I originally heard them, but an invitation. On those days I can pretend that she's still there in the jungle, dipping her feet, eating wild carrots, and waiting for me. I can pretend that I'll be joining her whenever I wish and just as soon as I please.
Bravo, Karen.
SE QUEREM SABER o que estive a fazer esta noite, este senhor sabe (see post for Thursday, May 01, 2003). Mas depois não me venham fazer comentários...
ABRE-SE A JANELA ou parte-se o vidro se estiver fechada. Neste caso, o acto é mais radical, pois reune em livro, que é possível possuir, textos que estão disponíveis publicamente, e logo não pertencem a ninguém. E tal como o amor, possuir tem um preço (que frase cínica!). Tem uma recompensa, também, pois o livro fica, permanece na mão, não cai na mesa-de-cabeceira de outro, é nosso, a pilha do que possuímos, é pra mim, para miiim, só pra miiiiim (ref. LeGuin, 1974). Ser livre é estar sozinho, ser cão abandonado, caneta sem tampa. Perder o eu e reencontrar o resto. Perder o resto. Mas disperso-me. Como diria A. G. (olá!), isto já cheira a confissão.
Mas de confissão se fala quando falamos de dar à luz (afinal, alguém tem de ser o pai...): Breaking Windows saiu, e mesmo contendo um texto que parece o Dalai Lama de tantas e múltiplas encarnações pelo mundo fora (o que é dizer que é sempre o mesmo a aparecer...), mesmo sendo três singelas páginas, o que o torna o texto mais curto, mesmo assim, é um livro, é uma posse, é o meu conto, o nome na polpa, a casca colorida, o mais que tudo no menos que nada. Também está na net, mas se querem que vos confesse, a net precisa de sal. De muito sal. Ler no écran é ir ao McDonald's. Penso que não preciso de explicar mais nada.
Penso também que quem tenha lido até aqui não tenha percebido mesmo nada. Sigam os links e descubram as pistas. Façam da vida um pedi-paper!
BLOGS E MAIS BLOGS Devia chamar-se grok, em homenagem ao Heinlein, que conotou o termo no Estranho numa Terra Estranha como sendo o acto de conhecer na totalidade e mais além, e que em português acabou por ficar grocar - presume-se que, dada a natureza do livro, o verbo implica essencialmente sexo com tudo o que se mexa ou que pelo menos não consiga fugir, mas também gosto bastante do Sturgeon, que não era menos tarado, e não lhes levo a mal. Blog soa a palavrão infantil, ao acto de ir ao gregório, ao resultado excrementício de uma noite que começou divertida e se tornou depois em efeitos secundários. Mas o pecado existe, é cometido assiduamente, e que prazer nos traz.
À pandilha juntam-se agora o Jorge e o Luís. O Jorge habita na ex-colónia marroquina portuguesa, al-Garve, e é comendador-mor da cultura (como quem diz: comentador-mor) do governo democraticamente eleito pelo décimo da população com capacidade de voto. Instituiu as bibliotecas de fantástico, os quiosquer da algaraviada (outro neologismo árabe), e os souks de meditação. Dele é menos a religião do espírito e mais a prática da carne, ou pelo menos assim afirmam os tablóides. No blog poderão encontrar referências culinárias, boas marcas de charuto, as melhores colheitas de castas seleccionadas, conselhos sentimentais e pequenas crónicas de países distantes que revelam o lado James Bond.
O Luís, por outro lado, aborda a vida de forma mais discreta. Personagem misteriosa, tem pouco contacto com o mundo exterior, e não aprecia os constantes assédios por parte da imprensa, que o obrigaram a mudar de residência pelo menos 5 vezes. Vive rodeado de segurança, e entrar na moradia do Carvalhal implica um contacto de longa data, ou a participação num projecto conjunto. Nem todos os familiares têm acesso. Não se sabe do que vive ou como vive. Tem uma presença assídua na internet, e diz-se que consegue estar em trinta chats simultâneos. Se já falou com um desconhecido pela internet, há uma forte probabilidade de que tenha sido com ele. Tem mais heterónimos que o Pessoa. O blog revela a distorção dessa mente complicada, sendo fascinante pelos comentários fora deste mundo, pela percepção estranha da realidade, pelo caminhar por um mundo de espelho que percebemos à partida não ser o nosso e que nos fascina e aterroriza ao mesmo tempo. Atenção: não é para fracos.






